Cuidado, respeito e liberdade norteiam debate a luta antimanicomial na Câmara de Camaçari
Cuidado, respeito e liberdade norteiam debate a luta antimanicomial na Câmara de Camaçari
A Câmara Municipal de Camaçari sediou Sessão Especial dedicada à Luta Antimanicomial, na manhã desta quarta-feira (03/06). Proposto e presidido pelo vereador João Dão (PSB), o encontro promoveu um debate profundo e necessário sobre o sofrimento mental — estado de desconforto psicológico marcado por sintomas como tristeza profunda, ansiedade, medo e exaustão. A iniciativa reforçou os princípios do movimento nacional, que combate o isolamento em abrigos e preconceitos históricos, defendendo o direito ao tratamento digno em liberdade.
O discurso de abertura ficou a cargo do líder da Bancada do Governo, vereador Tagner Cerqueira (PT), que relembrou a trajetória histórica do movimento no país. “Hoje nos reunimos para tratar de uma causa que fala diretamente sobre humanidade, respeito e dignidade. A luta antimanicomial completa 48 anos no Brasil. São décadas de mobilização de trabalhadores da saúde, usuários, familiares e movimentos sociais que se juntaram para defender um princípio simples e fundamental: todas as pessoas têm direito ao cuidado, ao respeito e à liberdade”, pontuou o parlamentar.
A sensibilidade do tema ganhou tom artístico com as apresentações culturais dos estudantes do Colégio Estadual Professora Nadir Araújo Copque, que interpretaram em coral os clássicos Anunciação, de Alceu Valença, e Eu só quero um xodó, de Dominguinhos. Logo em seguida, a jovem Julia Miranda emocionou o público com uma performance de dança moderna ao som da canção Vive, de Djavan.
O racismo estrutural e seus impactos diretos na saúde da população negra foram o cerne da palestra da professora Suiane Ferreira, pesquisadora do mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A especialista explicou que o preconceito racial atua como um estressor crônico e diário. Esse estado de alerta constante sobrecarrega o sistema nervoso simpático, elevando os níveis de adrenalina e cortisol, o que biologicamente predispõe o indivíduo a quadros de hipertensão, diabetes, depressão e ansiedade generalizada.
A pesquisadora também chamou a atenção para o adoecimento coletivo e criticou as lacunas na formação acadêmica tradicional. “O racismo vai além da individualização; a gente também sofre quando vê pessoas próximas sofrendo racismo. É preciso olhar para essa pessoa sabendo que ela tem cor, tem história, tem território, tem espiritualidade, que ela é um conjunto, e que temos que olhar para ela a partir desse lugar”, defendeu.
A relação entre o bem-estar psicológico e a segurança pública foi abordada por Leide Simões, integrante do setor de educação para o trânsito da Superintendência de Trânsito e Transporte de Camaçari (STT). Ao destacar as diretrizes da OMS e da ONU sobre a atual "pandemia de acidentes de trânsito", ela justificou a importância de um trânsito mais humanizado e menos reativo. O momento foi coroado com a entrega de uma Moção de Aplausos à STT pela criação da Viatura da Escuta Acolhedora, projeto pioneiro de suporte emocional nas vias.
A voz dos usuários do sistema público ecoou por meio do grupo Maluco Beleza, coletivo local de ativismo e inclusão social. Ao relatarem os desafios enfrentados no cotidiano dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os representantes pontuaram a necessidade de ir além do modelo biomédico. "Quando buscamos tratamento durante uma crise, é preciso muito mais do que remédios. A gente precisa ser acolhido, a gente precisa ser respeitado", desabafou Dona Creuza, integrante do grupo.
A mesa de honra também reuniu lideranças de diversos setores estratégicos do município, ampliando a rede de compromissos institucionais. Entre os convidados estavam: Monique Souza, conselheira tutelar, que reafirmou o zelo do órgão pelos direitos infantojuvenis e familiares; Elvira Laporte, coordenadora de educação inclusiva da Secretaria de Educação do Município, que debateu o papel e os limites da escola no suporte psicossocial; Márcia Cosme, representante da Coordenação Municipal de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas; Adriele Lima, coordenadora de psicologia do Hospital Geral de Camaçari; e Tatiane Mota, representante técnica dos CAPS do município.
No encerramento dos trabalhos, o vereador João Dão sintetizou o sentimento coletivo por melhorias contínuas nos serviços públicos e celebrou o saldo positivo do encontro. “Tivemos a oportunidade de reafirmar a importância da defesa dos direitos humanos, do respeito à dignidade das pessoas e da construção de uma sociedade mais acolhedora, inclusiva e comprometida com o cuidado e a liberdade. Que as discussões realizadas aqui sirvam para fortalecer a conscientização e o compromisso coletivo com uma saúde mental cada vez mais humana, acessível e respeitosa", finalizou
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